28 de Maio de 2007

Miguel Sousa Tavares, "Expresso" 26 Mai 07

 

ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO/WHO

Oitocentas crianças ou menores desapareceram em Inglaterra desde que Maddie desapareceu no Algarve, há três semanas. Escusado será dizer que nenhum desses desaparecimentos teve, de perto ou de longe, a mesma atenção e desvelo policial e, sobretudo, a mesma obsessiva cobertura mediática que o desaparecimento de Maddie tem tido.

 

Podemos procurar várias explicações para esta chocante desigualdade de tratamento, mas elas nunca andarão muito longe disto: Maddie é uma criança bonita, cuja cara faz excelentes primeiras páginas de jornais, «posters» afixados em supermercados, ou fotografias em ecrãs gigantes de estádios; os pais são jovens, médicos, também com boa imagem, ela sobretudo; a igreja da Praia da Luz é igualmente bonita (é mesmo a única coisa bonita que resta na Praia da Luz), e as imagens da antiga aldeia de pescadores, com mar azul ao fundo e sempre sob um sol magnífico, são um sedutor cenário para os intermináveis directos das televisões. O título de toda a história podia ser: ‘E, subitamente, no Paraíso inglês do Algarve...’

 

Centenas de jornalistas de várias nacionalidades acampam há três semanas na Praia da Luz, com especial destaque para os das televisões, que montaram autênticos estúdios ao ar livre. Mas, de tudo o que tenho visto, quer nas televisões nacionais quer nas inglesas, não vi ainda um mínimo esforço de reportagem, de investigação jornalística, de informação, pura e dura. Ninguém tem uma ideia, um plano de reportagem, uma iniciativa fora do rebanho, limitando-se todos a seguir o roteiro previamente definido e que contém, invariavelmente, uma conferência de imprensa da PJ ao final dos dias (de resto, sem o mais pequeno interesse), e a seguir as sortidas planeadas do casal McCann à igreja ou à rua.

 

Dia após dia, directo após directo, noticia-se coisa alguma ou, se algum pequeno indício de informação nova aparece, é explorado até à exaustão, repetindo-se palavra por palavra a mesma coisa, dias a fio. Para isso, aliás, o casal McCann beneficia, desde o início, da presença de um profissional de comunicação, esses novos abutres da informação, cuja tarefa consiste em fabricar acontecimentos filmáveis, «photo-opportunities», ou «quoting sentences» para manterem o interesse mediático à volta de histórias sem notícia.

 

Quando o dito profissional pressente que o interesse dos «media» pode estar a desvanecer-se, programa-se uma saída à rua da srª McCann (sempre com o ursinho de peluche da filha na mão, uma ideia tão óbvia quanto eficaz), ou arranja-se uma missa na igreja local ao final da tarde ou mesmo uma ida a Fátima. Compreendo, é claro, que seja do interesse dos pais manterem todas as atenções focadas no seu caso, e eles sabem que, se conseguirem manter a imprensa na Praia da Luz, manterão também a polícia infatigavelmente em cima da história. “E - perguntava-me há dias uma algarvia, em Lagos - se uma criança nossa desaparecesse agora, a Polícia também punha 180 inspectores e agentes à procura dela, mais 50 GNR?” Pois, quem sabe que responda.

 

Os pais fazem o que é do seu melhor interesse. A polícia, todos o percebemos, leva a cabo uma tarefa que é muito mais do que policial, é política, diplomática e turística. E a imprensa?

Alcides Vieira é o director de informação da SIC, a estação nacional que mais cobertura tem dedicado ao caso: 212 ‘notícias’ e 14 horas de cobertura, em vinte dias. Afirma ele que “os números são relativos, as estatísticas nem sempre traduzem a realidade” (?), e recusa a ideia de exagero da cobertura, embora reconheça que “tem havido um ou outro directo que não se justificava”. Mas, e agora oiçam isto: “A falta de notícia também é notícia. O dever do jornalista, às oito da noite, é o de informar o que aconteceu nesse dia, mesmo que não se passe nada”.

 

Não é verdade e ele sabe-o bem. Uma não-notícia não é notícia em lugar algum do mundo. No tempo em que eu comecei a fazer jornalismo televisivo, ao lado de Alcides Vieira, os telejornais demoravam trinta minutos e se, por acaso, não houvesse notícias suficientes para justificarem a sua inclusão num jornal nacional de televisão, este tinha até menos de trinta minutos. O critério era simples e qualquer um o entendia: a importância e a quantidade de notícias do dia é que determinavam a extensão do jornal, mas sempre com o limite de trinta minutos. Hoje segue-se um critério substancialmente diferente: as audiências e a gestão estratégica da programação e contraprogramação, feita diariamente ao minuto, é que determinam a agenda da informação.

 

Se uma estação tem agendada a estreia de uma novela às 20h30, o jornal dura 22-23 minutos, ficando o resto para publicidade e mesmo que o mundo ameace guerra nesse dia; mas se é a concorrência que tem uma estreia marcada durante o horário do jornal, este pode durar até hora e meia e incluir casos tão palpitantes como o corte de uma estrada numa freguesia rural. Ou então, como acontece nestes dias, regressa-se três vezes à Praia da Luz, para que os enviados especiais façam novo “ponto da situação” - que é exactamente a mesma às 21h15, do que era às 20h40 e do que era às 20h03.

 

A ideia de que a informação televisiva se pode permitir o luxo de ter notícias a dizer que não se passou nada e ainda continuar a chamar a isso jornalismo, é uma ideia que seria até cómica se não se desse o caso de ela traduzir fielmente a triste realidade em que vive o jornalismo televisivo. No tempo em que este existia, não havia, por exemplo, este massacre dos directos e das notícias reduzidas aos ‘vivos’, com a cara dos repórteres no local a debitarem banalidades.

 

No tempo em que eu e o Alcides fazíamos jornalismo de televisão, havia até uma máxima: a cara do jornalista não é notícia. E, porque não era, isso obrigava os repórteres a fazer investigação, entrevistar, filmar, recolher som ambiente, montar - numa palavra, a fazer reportagem para televisão. E a grande diferença era esta: é possível pôr um jornalista à frente da câmara a falar sobre um não-acontecimento - alguma coisa lhe há-de ocorrer sempre para dizer; mas não é possível fazer uma reportagem filmada sobre um não-acontecimento. Daí que os chefes hoje prefiram as caras dos jornalistas às caras das notícias: porque é preciso encher chouriços a falar de qualquer coisa, desde que tenha audiência. O caso Maddie tem sido um exemplo eloquente desta filosofia e uma verdadeira lição ao vivo do estado em que está o jornalismo televisivo.

 

O problema, porém, não se esgota na falta de qualidade do jornalismo televisivo. Eu julgo que a prazo (e isso já se verifica), o mau jornalismo de televisão, ao formar maus consumidores de informação, afasta-os da imprensa escrita - onde não é possível gastar páginas a falar de coisa alguma ou encher páginas com as imagens do urso de peluche da srª McCann. Se algum dia a imprensa morrer, o suspeito nº 1 do crime é a televisão.

 

Miguel Sousa Tavares, "Expresso" 26 Mai 07



publicado por Portugal TV às 18:33
Concordo com tudo o que foi dito aqui.

Porquê tanta atenção especificamente nesta criança? Pode parecer estranho eu dizer isto, mas começa a raiar o exagero. Tantos meninos e meninas maltratados, desaparecidos, abusados e sabe-se lá que mais, não percebo qual o atractivo ou a prioridade que esta menina merece. Compreendo a posição dos pais, acho que fazem muito bem em revirar o mundo para encontrar a filha deles. Da minha parte, se tivesse um filho desaparecido e tivesse que assistir a todo este devaneio mediático, admito que haveria grandes probabilidades de me sentir muito - mesmo muito - ressentida.

Por outro lado, continuo sem entender que pais deixam crianças de semelhante idade sozinhas em casa.

Mas espero sinceramente que a menina apareça. Ou, se não ela, que as investigações ajudem a descobrir outros meninos desaparecidos.
Anónimo a 5 de Junho de 2007 às 17:44
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